AS COTAS NO VESTIBULAR
Quem estuda, ou já estudou muitos anos em
escolas, colégios ou faculdades, sabe que as provas são
um meio bastante imperfeito de avaliar o conhecimento de
alguém. Muitos fatores influenciam, desde o nosso estado
emocional no dia, até a velha decoreba da matéria, que
esquecemos totalmente depois de alguns dias. Por isso, o
resultado que temos numa prova não é o nosso
conhecimento, mas apenas uma representação dele. Isto, é
claro, quando não colamos, pois daí a nota da prova não
representa nada, a não ser um jeito eficaz de burlar o
método de avaliação.
Esta lição pode ser aplicada em outros casos,
como, por exemplo, com relação às estatísticas. As
estatísticas são um meio de avaliação e, como as provas
do colégio, bastante imperfeito. Até já disseram que a
estatística é uma mentira bem contada. Apesar disso ser
verdade em muitos casos, elas têm uma certa utilidade,
principalmente quando se trata de demonstrar uma coisa
que, assim como o conhecimento, não é concreta, não é
palpável, e por isso precisa de uma representação para
ser observada. É o caso das disparidades sociais. A
disparidade social não é algo palpável. Se você vê uma
casa luxuosa ao lado de um casebre, e agrega a isso uma
certa dose de abstração, você percebe uma diferença de
riquezas. Nesse caso, as casas servem como um símbolo de
uma coisa abstrata. Mas quando aumentamos a escala para
a dimensão de uma cidade, de um país ou de todo o
planeta, a percepção imediata pelos sentidos torna-se
impossível, daí a utilidade dos números. São as
estatísticas que nos informam que muitos por cento da
riqueza está na mão de poucos por cento da população, e
vice-versa. Ou que muitos por cento da população é
negra, ao passo que poucos por cento da estudantes
universitários são negros. Estas estatísticas, porém,
não são a injustiça social, mas apenas uma representação
dela. Esta distinção é sutil, mas muito importante.
Sempre que é ignorada, criam-se políticas sociais que
nada mais fazem que alterar as estatísticas. Estas
políticas são como a cola, são apenas um meio eficaz de
burlar os métodos de avaliação. E os números que surgem
como resultados dessas políticas simplesmente não
representam nada.
Este é o caso das cotas adotadas no vestibular
das universidades estaduais do Rio de Janeiro. Ora,
reservar 40% das vagas para negros não elimina o racismo
na sociedade, pelo contrário, apenas oficializa o
elemento "raça" como fator determinante na distinção
entre os homens. Também, reservar 50% das vagas para
alunos de escolas públicas, não melhora a condição de
ensino nessas instituições. Enfim, facilitar
aos "segmentos" sociais excluídos o acesso à
universidade desta maneira não acaba com a exclusão,
apenas cria novos critérios para uma mesma exclusão. As
cotas do vestibular apenas alteram as estatísticas e
maquiam a realidade.
Na polêmica que se instaurou, algumas pessoas
denunciaram que as cotas foram importadas de uma
sociedade diferente que a nossa. É uma reflexão correta,
mas limitada. Na verdade, quase todos nossos modelos
sociais foram importados e instalados por aqui sem que
refletissem a realidade local, a começar pelo próprio
sistema de ensino. O Brasil é um país essencialmente
multicultural, mas o sistema de ensino é unitário,
homogêneo e gerido de forma centralizada e hierárquica
pelo MEC. Assim, tanto os métodos de ensino como os
conteúdos que são ensinados, seja de história, línguas,
artes, geografia e até mesmo ciências, seguem a tradição
de uma única cultura, a cultura dos dominadores que
subjugaram todas as demais. Isto ocorre do ensino
fundamental ao ensino superior, mas nas universidades a
situação se agrava, em função das reservas de mercado
atribuídas a certas profissões regulamentadas. É o que
ocorre quando pessoas licenciadas em educação física
pretendem ter o monopólio de ensinar capoeira, yoga,
entre outras manifestações culturais que já têm sua
própria tradição de transmissão do saber. O mesmo
acontece com as chamadas terapias "alternativas", que
nada mais são que uma forma de medicina pertencente a
tradições de outros povos, mas são marginalizadas pela
suposta superioridade da medicina ocidental acadêmica.
Exemplos como esses são muitos.
Sob esse viés, a reserva de cotas para negros,
longe de ser uma reparação de uma dominação ocorrida no
passado, representa o processo de homogeneização e
eliminação de culturas que se iniciou há quinhentos anos
e continua até hoje. É claro que atualmente esse
processo não tem nada a ver com o comércio de escravos,
mas se assemelha muito ao modo de atuação dos jesuítas,
que naquele tempo soava como uma "bem intencionada"
tentativa de salvar o outro, mas nada mais era que uma
imposição cultural.
Por isso, a herança do passado não está pontuada
em pessoas, descendentes de escravos, de portugueses, de
italianos ou seja lá o que for. Está, isso sim, nos
modelos de organização social e nas formas de interação
das diversas culturas nos dias de hoje. E disso, somos
todos descendentes. A política de cotas é, pois, o
artifício de uma sociedade que tem preguiça de encarar a
fundo os desafios de resolver os problemas que ela mesma
criou e mantém, preferindo varrer a sujeira para debaixo
do tapete.
Diogo Denczuk
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